Do Assalto ao Golpe: A Nova Face dos Crimes Patrimoniais no Brasil

24 de setembro de 2025

Nos últimos cinco anos, o Brasil tem vivenciado uma transformação silenciosa, porém profunda, na configuração dos crimes patrimoniais — aqueles que afetam diretamente o patrimônio das pessoas, como furtos, roubos, estelionatos e fraudes. Trata-se de uma das categorias mais comuns de ocorrência criminal, com forte impacto na sensação de segurança da sociedade. 

 

Os tradicionais roubos de rua, que já dominaram as estatísticas policiais, vêm dando lugar a crimes menos visíveis, mas muito mais frequentes e sofisticados: o estelionato e as fraudes eletrônicas. 

 

Essa mudança começou a ser percebida com mais clareza a partir do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022, que analisou os dados de 2021. Desde então, os relatórios anuais vêm confirmando uma tendência cada vez mais consolidada: o crime patrimonial migrou das ruas para o ambiente digital. 

A Queda dos Roubos e a Explosão dos Estelionatos 

Desde 2018, o número de roubos registrados no país apresenta queda consistente. Em 2024, as polícias civis registraram 745 mil roubos, uma redução de 15,2% em relação ao ano anterior. Em paralelo, os crimes de estelionato dispararam: foram 2,16 milhões de registros em 2024, com crescimento de 7,8% no ano e 17% quando se trata de estelionato por meios eletrônicos. 

 

A diferença é brutal: estamos falando de quase 208 casos de estelionato por hora, enquanto os crimes de rua se tornam menos frequentes. Isso não significa que o crime desapareceu, mas que mudou de forma, espaço e estratégia. 

O Papel da Pandemia e da Transformação Digital 

Esse novo cenário não surgiu do nada. Ele é resultado de um conjunto de fatores que convergiram nos últimos anos: 

 

  • A pandemia da Covid-19, que esvaziou as ruas e colocou milhões de brasileiros em home office; 
  • A digitalização das finanças, com o lançamento do PIX e o avanço das transações por mobile banking
  • A popularização dos smartphones — o Brasil já tem mais de 258 milhões de celulares ativos, média de 1,2 por habitante; 
  • A adoção massiva de redes sociais e aplicativos de mensagens, terreno fértil para golpes e fraudes de engenharia social. 

 

O crime seguiu o dinheiro, e o dinheiro, hoje, circula no ambiente digital. 

Celular Roubado: A Porta de Entrada para Golpes 

Entre 2018 e 2021, mais de 3,7 milhões de celulares foram furtados ou roubados no Brasil, uma média de 2,5 aparelhos por minuto. 

 
O celular passou a ser muito mais do que um bem material: ele guarda dados bancários, senhas, conversas, acessos a contas, sistemas de autenticação e PIX. Um aparelho desbloqueado, nas mãos erradas, pode gerar: 

 

  • Transferências fraudulentas; 
  • Empréstimos em nome da vítima; 
  • Golpes via WhatsApp, com engenharia social sobre contatos próximos. 

 

E não para por aí: parte desses aparelhos é desmontada e vendida localmente, enquanto outra parte é enviada para o exterior, especialmente países africanos, onde o bloqueio das operadoras brasileiras não tem efeito. 

O Desafio para a Segurança Pública 

O crescimento de quase 300% nos estelionatos entre 2018 e 2024 desafia qualquer estrutura. Apenas 2,4% dos casos registrados chegam ao Judiciário. A estrutura policial e judiciária, formada para combater crimes presenciais e físicos, ainda engatinha para acompanhar a lógica da criminalidade digital, que exige tecnologia, integração e capacitação técnica. 

 

Por trás da tela de um celular ou computador, o criminoso se protege de confrontos com a polícia. Atua de forma automatizada, com robôs e bases de dados vazadas, aplicando golpes em milhares de vítimas por dia — algo impensável no velho modelo do “assalto à mão armada”. 

Boas Práticas e Sinais de Esperança 

Felizmente, alguns estados vêm apresentando soluções inovadoras: 

 

  • O programa Celular Seguro, do Ministério da Justiça, permite bloquear celulares e notificar bancos em caso de roubo; 
  • O projeto “Recuperação de Celulares”, criado pela Polícia Civil do Piauí, utiliza análise de dados, integração com o Judiciário e ordem judicial para localizar milhares de aparelhos furtados, com uma redução de 29,7% nos crimes no estado. 

 

Em estados como Santa Catarina e Acre, o número de celulares recuperados cresce acima da média, mostrando que políticas públicas bem desenhadas e foco em inteligência podem fazer a diferença. 

Um Novo Ciclo de Crime Requer uma Nova Estratégia 

A criminalidade se transformou. Os criminosos também. O Brasil precisa, agora, transformar sua resposta. É preciso ir além do policiamento ostensivo e adotar uma visão mais ampla, tecnológica e integrada. Isso inclui: 

 

  • Investimento em soluções digitais de investigação e inteligência; 
  • Capacitação profissional em cibersegurança e crimes eletrônicos; 
  • Cooperação entre polícias, bancos, operadoras, Judiciário e setor privado; 
  • E, sobretudo, foco em prevenção, recuperação do patrimônio e proteção da vítima. 

 

O espaço físico limita a ação criminosa. O ambiente digital, não. Se o crime mudou, a segurança pública também precisa mudar. 

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Por que a compreensão do comportamento criminoso fortalece as investigações em ambientes ocultos? Nenhuma investigação produz resultados a partir de uma única evidência. A relação entre diferentes registros permite identificar conexões, reconstruir cenários e gerar conhecimento capaz de apoiar a atividade investigativa. Esses registros podem estar distribuídos entre diferentes ambientes digitais — da Surface Web à Deep Web e à Dark Web — assumindo formatos variados. Independentemente da origem, seu valor investigativo depende da análise integrada e da contextualização adequada. Quando atividades criminosas migram para ambientes ocultos da internet, o desafio investigativo é frequentemente associado ao acesso a essas redes. Embora tecnologias de anonimização aumentem a complexidade da análise, elas representam apenas uma parte do problema. O elemento central está na leitura dos comportamentos, nas escolhas operacionais e na correlação de vestígios digitais ao longo do processo investigativo, o que permite identificar estruturas, padrões de atuação e níveis de organização. O acesso é apenas o início da investigação Grande parte das discussões sobre a Dark Web concentra-se nas tecnologias utilizadas para acessá-la. Redes como Tor, I2P e ZeroNet são frequentemente apresentadas como elementos centrais desse ambiente, por permitirem diferentes níveis de anonimização e hospedagem de serviços ocultos. Para a atividade investigativa, compreender essas tecnologias é uma etapa necessária, pois sua utilização revela aspectos relevantes sobre a forma como grupos criminosos estruturam suas operações e organizam sua comunicação. A escolha de uma determinada rede raramente é aleatória. Organizações criminosas avaliam fatores como estabilidade da infraestrutura, facilidade de comunicação, resistência a interrupções e nível de exposição às ações das forças de segurança. Cada decisão desse tipo produz sinais que ajudam a compreender como uma operação é conduzida. Diferentes grupos adotam estratégias distintas para atingir objetivos semelhantes. Alguns concentram operações em redes conhecidas, enquanto outros distribuem suas atividades entre múltiplos ambientes ou mantêm canais paralelos de comunicação para reduzir riscos. Essas escolhas refletem prioridades operacionais e capacidade de adaptação. Sob essa perspectiva, o ambiente passa a ser observado como uma fonte contínua de indicadores capazes de revelar comportamentos, relações e transformações que dificilmente surgiriam em análises isoladas. Toda mudança operacional produz novos indicadores Organizações criminosas evoluem continuamente para reduzir riscos e preservar suas operações. À medida que novas técnicas de investigação são desenvolvidas, esses grupos também modificam suas infraestruturas, alteram canais de comunicação e buscam ambientes mais resilientes. Nos últimos anos, esse movimento tornou-se evidente com a migração de parte dessas operações para redes alternativas, como a I2P. Em muitos casos, essa decisão está relacionada à tentativa de reduzir impactos de ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS), aumentar a disponibilidade de marketplaces clandestinos ou dificultar ações de monitoramento. Para quem investiga, essa migração representa mais do que uma mudança tecnológica. Sempre que uma organização criminosa altera sua infraestrutura, ela reorganiza sua operação. Novos endereços são divulgados, administradores comunicam usuários, comunidades migram entre ambientes e registros dessa transição passam a existir. Esses movimentos ampliam a quantidade de sinais disponíveis para análise. Imagine um marketplace clandestino que decide migrar suas operações após sucessivos ataques. Durante esse processo, administradores anunciam novos canais de acesso, usuários validam informações, parceiros atualizam referências e serviços relacionados passam a mencionar o novo ambiente. Cada interação produz vestígios que, quando analisados em conjunto, ajudam a compreender a dinâmica daquela operação. É nesse ponto que a análise deixa de observar apenas a tecnologia e passa a interpretar comportamento. A forma como uma organização reage à pressão, reorganiza sua infraestrutura e mantém sua rede de relações revela informações sobre sua capacidade operacional e sua evolução ao longo do tempo. O anonimato termina onde começam os erros Um dos maiores equívocos sobre a Dark Web é acreditar que tecnologias de anonimização tornam seus usuários completamente invisíveis. Redes como Tor oferecem mecanismos importantes de proteção de identidade e privacidade, mas nenhuma tecnologia elimina falhas humanas ou operacionais. Na prática, grandes investigações raramente avançam apenas pela quebra de mecanismos de anonimização. Elas evoluem porque indivíduos e organizações deixam rastros ao longo de suas atividades digitais. Esses rastros podem surgir de diversas formas: reutilização de endereços de e-mail, uso do mesmo pseudônimo em diferentes plataformas, exposição involuntária de informações pessoais, falhas de configuração ou padrões de comportamento repetitivos. O mesmo ocorre com transações envolvendo ativos digitais. Embora criptomoedas como o Bitcoin sejam frequentemente associadas ao anonimato, suas transações permanecem registradas em blockchain. Quando analisadas em conjunto com outras fontes, essas informações ajudam a compreender fluxos financeiros e conexões entre atividades. Falhas de segurança operacional (OpSec) ilustram essa dinâmica. Um endereço de e-mail reutilizado em diferentes ambientes, um pseudônimo empregado em fóruns e plataformas da Surface Web ou padrões repetitivos de comportamento podem estabelecer conexões entre identidades digitais. Quando analisados em conjunto, esses vestígios permitem atribuir atividades com maior grau de confiança. Esses casos demonstram que a atribuição de autoria raramente depende de um único elemento. Ela resulta da análise conjunta de pequenos vestígios que, quando contextualizados, revelam conexões capazes de orientar a investigação. Evidências isoladas não explicam uma investigação Informações obtidas na Dark Web raramente possuem valor isoladamente. Um anúncio em um fórum clandestino, uma carteira de criptomoedas, um pseudônimo ou um endereço de e-mail dificilmente explicam uma atividade criminosa por si só. O valor investigativo desses elementos surge quando são analisados em conjunto dentro de um cenário mais amplo. Imagine uma investigação em que um fórum clandestino anuncia o acesso a uma rede corporativa comprometida. A publicação traz apenas um pseudônimo e uma carteira de Bitcoin. Em um primeiro momento, essas informações parecem insuficientes. Durante a análise, o mesmo pseudônimo é identificado em outro ambiente digital, associado a um contato diferente. A carteira de criptomoedas aparece vinculada a transações anteriores, enquanto fontes abertas ajudam a estabelecer conexões adicionais. Nenhum elemento isolado explica o caso. Em conjunto, eles revelam uma estrutura de relacionamento relevante para a investigação. O mesmo princípio se aplica a diferentes tipos de crime digital, incluindo tráfico de drogas, comércio de credenciais comprometidas, CSAM, tráfico de armas e operações de ransomware, todos caracterizados pela produção contínua de vestígios distribuídos em múltiplos ambientes digitais. É nesse ponto que tecnologias especializadas ampliam a capacidade investigativa. Ao reunir informações de diferentes ambientes e fontes de inteligência, elas permitem que a análise se concentre na interpretação das relações entre dados, na validação de hipóteses e na construção de contexto investigativo. Essas capacidades permitem organizar informações dispersas em um contexto investigativo estruturado, no qual cada novo dado é interpretado a partir de suas relações com os demais elementos do conjunto analisado. Inteligência para acompanhar a evolução das ameaças As organizações criminosas continuarão modificando suas estruturas, adotando novas tecnologias e explorando diferentes ambientes digitais para reduzir sua exposição. Esse movimento faz parte da dinâmica da criminalidade e impõe desafios permanentes à atividade investigativa. A produção de inteligência exige a integração de diferentes capacidades, desde a coleta de dados até a análise, a correlação de evidências e a construção de contexto investigativo. 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10 de junho de 2026
Imagens passaram a ocupar um papel cada vez mais relevante em atividades de investigação, inteligência e análise digital. Fotografias compartilhadas em redes sociais, aplicativos de mensagens, plataformas abertas e dispositivos pessoais carregam informações que podem auxiliar na identificação de locais, contextualização de eventos e compreensão de dinâmicas associadas a ambientes investigativos. À medida que a produção e circulação de conteúdo visual aumentaram no ambiente digital, também cresceram as possibilidades de extração de informações a partir de elementos presentes nas próprias imagens. Arquitetura, vegetação, infraestrutura urbana, sinalizações, idioma, relevo e características culturais passaram a ser utilizados como referências para inferir a localização geográfica de uma fotografia, mesmo na ausência de metadados de GPS. Esse processo, conhecido como geolocalização de fotos, passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante em atividades relacionadas à inteligência digital, investigação e análise contextual de informações. Em ambientes operacionais que dependem de validação de dados, correlação de evidências e compreensão de cenários investigativos, a interpretação geográfica de imagens se tornou uma capacidade estratégica para equipes de inteligência e segurança. Os avanços da inteligência artificial e das tecnologias de visão computacional, especialmente por meio dos Large Vision-Language Models (LVLMs), ampliaram a capacidade de correlacionar elementos visuais e contextuais presentes nas imagens, permitindo análises mais sofisticadas em atividades relacionadas à investigação digital, monitoramento, validação de informações e produção de inteligência operacional. Os Fundamentos da Geolocalização de Fotos As primeiras metodologias de geolocalização eram voltadas para tarefas mais simples, como a identificação de pontos turísticos conhecidos ou a utilização de metadados incorporados às imagens, incluindo coordenadas GPS e informações do dispositivo utilizado no registro. Com a evolução das tecnologias de análise visual, pesquisadores passaram a explorar diretamente os elementos presentes na composição das imagens, incluindo estilos arquitetônicos, vegetação, infraestrutura urbana, sinalizações e características ambientais. Esse avanço ampliou o uso da análise de imagens em atividades relacionadas à inteligência digital e investigação, permitindo que elementos visuais fossem utilizados para contextualizar informações, apoiar análises situacionais e auxiliar processos investigativos. A possibilidade de interpretar dados presentes na própria composição visual das fotografias permitiu que processos de geolocalização continuassem sendo aplicados mesmo em cenários onde metadados estavam ausentes, haviam sido removidos ou sofreram algum tipo de manipulação. Em investigações digitais, esse tipo de cenário se tornou cada vez mais comum diante da circulação de conteúdos extraídos de redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas abertas, onde imagens frequentemente chegam sem informações de origem ou com metadados alterados ao longo do compartilhamento. Principais Técnicas de Geolocalização Métodos Baseados em Recuperação de Imagens - Comparam uma imagem de entrada com grandes bases de imagens georreferenciadas, utilizando características visuais como textura, composição estrutural e distribuição de cores para estimar sua localização. Métodos Baseados em Classificação - Nessa abordagem, a geolocalização é tratada como um problema de classificação. O mundo é dividido em regiões geográficas, e os modelos são treinados para prever a área correta com base nos padrões visuais identificados na imagem. Abordagens Híbridas - Combinam técnicas de recuperação e classificação para ampliar a precisão dos resultados e melhorar a interpretação contextual das análises. Métodos Baseados em LVLMs - Os Large Vision-Language Models conseguem analisar elementos contextuais presentes nas imagens, como textos em placas, referências culturais, idiomas, padrões urbanos e indicadores ambientais para inferir localização com níveis mais avançados de precisão. A evolução dessas metodologias ampliou as possibilidades de aplicação da geolocalização em atividades relacionadas à investigação digital, análise contextual de informações e produção de inteligência, especialmente em cenários que exigem validação rápida de conteúdos e correlação entre diferentes fontes de dados. Geolocalização de Imagens em Redes Sociais e OSINT A geolocalização é amplamente utilizada em atividades de Open-Source Intelligence (OSINT) para validar imagens, identificar conteúdos e rastrear a origem de fotografias compartilhadas online. Em ambientes investigativos, a análise geográfica de imagens também pode auxiliar na reconstrução de cenários, contextualização de eventos e identificação de conexões relevantes a partir de informações visuais distribuídas em diferentes plataformas e fontes abertas. O Futuro da Geolocalização de Imagens À medida que as tecnologias para geolocalização evoluem, novas possibilidades surgem para aplicações em inteligência artificial, visão computacional, segurança e investigação digital. O avanço da inteligência visual também impulsiona o desenvolvimento de plataformas especializadas capazes de transformar análise contextual de imagens em apoio operacional para ambientes de investigação e inteligência. Tecnologias como as desenvolvidas pela Graylark , empresa integrante do ecossistema de soluções da Inspect , demonstram como modelos de inteligência artificial vêm ampliando a capacidade de estimar localização geográfica a partir da interpretação de elementos visuais presentes nas imagens, incluindo arquitetura, vegetação, sinalizações e padrões urbanos, mesmo quando não existem metadados de GPS disponíveis. Esse tipo de abordagem evidencia como a análise visual vem assumindo um papel cada vez mais estratégico em atividades relacionadas à produção de inteligência operacional, contextualização de informações, validação de conteúdos e apoio analítico para processos investigativos e tomada de decisão.